Um apelido que no Nordeste é sinônimo de moleque e foi recebido antes do nascimento acabou sendo um grande nome da música brasileira. Batizado como Agenor de Miranda Araújo Neto e nascido no Rio de Janeiro em 4 de abril de 1958, Cazuza teve em sua vida muito mais do que cantar. Criou gerações de músicos inspirados em suas letras, e, até mesmo, pôs em suas canções o que milhares de pessoas estavam sentindo e não sabiam como se expressar. Cazuza com seu parceiro da banda Barão Vermelho, Roberto Frejat, abriram uma lacuna com os demais integrantes da banda que nenhuma outra vai igualar o estilo da época.

Cazuza era rebelde, boêmio e polêmico, além de bissexual assumido. Em 1989 declarou ser soropositivo e morreu em 1990, no Rio de Janeiro, cinco anos após ter deixado o Barão Vermelho e ter seguido carreira solo.

História

Filho do produtor fonográfico João Araújo e de Lucinha Araújo, que também arriscava algumas canções e chegou a gravar três discos, Cazuza sempre teve contato com a música. Influenciado desde pequeno pelos grandes nomes da música brasileira, ele tinha preferência pelas canções dramáticas e melancólicas, como as de Cartola ( também chamado Agenor), Dolores Duran, Lupicínio Rodrigues, Noel Rosa, Maysa e Dalva de Oliveira. Era também grande fã da roqueira Rita Lee, para quem chegou a compor a letra da canção "Perto do fogo", que Rita colocou em um de seus discos.

Cazuza cresceu no bairro do Leblon e em torno de 1965 começou a escrever letras e poemas. Graças ao ambiente profissional do pai, Cazuza cresceu em volta dos maiores nomes da música popular brasileira, como Caetano Veloso, Elis Regina, Gal Costa, Gilberto Gil, João Gilberto, Novos Baianos, entre outros.

Em 1972, tirando férias em Londres, Cazuza conheceu as canções de Janis Joplin, Led Zeppelin e Rolling Stones, e logo tornou-se um grande fã.

Depois de 1976, começou a frequentar o Baixo Leblon, onde levou uma vida boêmia, bebendo e fumando, e se relacionando sexualmente com homens e mulheres. Para evitar tudo isso, João Araújo criou um emprego para ele como produtor artístico na gravadora Som Livre, da qual foi fundador e presidente.

No final de 1979 fez um curso de fotografia na Universidade da Califórnia em Berkeley, Estados Unidos. Lá, descobriu a literatura da Geração Beat, os chamados poetas malditos, que mais tarde teria grande influência na carreira. Em 1980 retornou ao Rio de Janeiro, onde ingressou no teatro e cantou em público pela primeira vez. Foi Leo Jaime, que indicou Cazuza aos vocais de uma banda de garagem que iniciava. Daqueles ensaios na casa do tecladista Maurício Barros, nasceu o Barão Vermelho.

Em seguida, Cazuza mostra à banda letras que havia escrito e passa a compor com Roberto Frejat. Após ouvir uma fita demo da banda, o produtor Ezequiel Neves convence o diretor artístico da Som Livre, Guto Graça Mello, a gravar a banda com uma produção barata e gravado em apenas dois dias. Assim, foi lançado em 1982 o primeiro álbum da banda, Barão Vermelho. Das canções mais importantes, destacam-se "Bilhetinho Azul", "Ponto Fraco", "Down Em Mim" e "Todo Amor Que Houver Nessa Vida". O disco vendeu apenas sete mil cópias.

Depois de alguns shows no Rio de Janeiro e em São Paulo, a banda voltou ao estúdio e com uma melhor produção gravou o disco Barão Vermelho 2, lançado em 1983. Esse disco vendeu 15 mil cópias. Foi nessa fase que, durante um show no Canecão, Caetano Veloso apontou Cazuza como o maior poeta da geração e criticou as rádios por não tocarem a banda. Na época as rádios só tocavam pop brasileiro e MPB. O rótulo de "banda maldita" só abandonou o Barão Vermelho quando o cantor Ney Matogrosso gravou "Pro Dia Nascer Feliz". Era o empurrão que faltava, e a banda ganhou vida pública própria, inclusive sendo convidada a compor e gravar o tema do filme Bete Balanço. A canção-título tornou-se um dos grandes clássicos da banda, impulsionando o filme que vira sucesso de bilheteria. A canção também impulsionou as vendas do terceiro disco do Barão, Maior Abandonado, lançado em outubro de 1984, que conquistou disco de ouro, registrando outras composições como "Maior Abandonado" e "Por Que a Gente é Assim?".

Em 1985, o Barão Vermelho participou da primeira edição do Rock in Rio em uma apresentação antológica por coincidir com a eleição do presidente Tancredo Neves e com o fim da Ditadura Militar. Cazuza anunciou esse fato ao público presente e para comemorar, cantou "Pro Dia Nascer Feliz".

1985 foi o ano das mudanças

Em julho de 1985, nos ensaios para o quarto álbum, Cazuza deixou o Barão Vermelho para a seguir carreira solo. Suspeita-se que nesse mesmo ano começou a ter sintomas da AIDS que tiraria sua vida anos depois. Ainda em outubro de 1985, Cazuza é internado para ser tratado por uma pneumonia onde fez um teste de HIV, o qual o resultado foi negativo.

Em novembro de 1985 foi lançado o primeiro álbum solo, Exagerado. A faixa-título composta em parceria com Leoni, se torna um dos maiores sucessos do cantor que também teve a canção "Só As Mães São Felizes" vetada pela censura.

No segundo semestre de 1986, Cazuza gravou o segundo álbum "Só Se For A Dois" e lançou em 1987 com sucessos como "O Nosso Amor A Gente Inventa", "Solidão Que Nada" e "Ritual". Ainda em 1987, a AIDS se manifestou e Cazuza foi internado novamente com pneumonia, e um novo teste confirmou que Cazuza era portador do vírus HIV. Em outubro, foi internado no Rio de Janeiro, para ser tratado por uma nova pneumonia. Em seguida, ele é levado pelos pais aos Estados Unidos. para tratamento até o começo de dezembro daquele ano.

Em meio ao tratamento e recuperação de sintomas também pelas medicações fortes, Cazuza já mostrava o emagrecimento de seu corpo. Mesmo assim, iniciou as gravações para um novo disco.

Ideologia foi lançado em 1988, com "Ideologia", "Brasil" e "Faz Parte Do Meu Show". "Brasil", em versão de Gal Costa foi tema de abertura da telenovela Vale Tudo, da Rede Globo e ganhou premio Sharp por melhor musica do ano e melhor composição pop-rock do ano. A turnê do disco foi dirigido por Ney Matogrosso, e viajou por todo o Brasil.

O álbum O Tempo Não Pára, gravado no Canecão durante esta turnê, foi lançado em 1989 e se tornou o maior sucesso comercial superando a marca de 500 mil cópias vendidas pelo artista. A faixa título do disco junta-se a outros sucessos como "Todo Amor Que Houver Nessa Vida", "Codinome Beija-Flor" e "Faz Parte Do Meu Show".

A revelação da doença

Em fevereiro de 1989 Cazuza declarou publicamente que tinha HIV e auxiliou nos trabalhos para divulgar e criar consciência em relação à doença e aos efeitos dela. Compareceu na cerimônia do Prêmio Sharp numa cadeira de rodas, e recebeu os prêmios de melhor canção para "Brasil" e de melhor álbum para Ideologia.

O álbum duplo Burguesia, lançado em 1989, foi todo gravado com o cantor sentado em uma cadeira de rodas e com a voz nitidamente fraca. Foi o último disco gravado por Cazuza e vendeu 250 mil cópias. Cazuza recebeu o Prêmio Sharp póstumo de melhor canção com "Cobaias de Deus".

A hora da morte

Depois de muito lutar para se manter forte, em outubro de 1989, Cazuza partiu novamente para os Estados Unidos, onde ficou internado até março de 1990 em tratamento forte para a doença.

Três meses depois, em 7 de julho de 1990, Cazuza morre precocemente aos 32 anos, vítima de um choque séptico causado pela AIDS. No enterro com mais de mil pessoas, o caixão de Cazuza, foi levado à sepultura pelos ex-companheiros do Barão Vermelho. Cazuza foi enterrado no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Sobre o tampo de mármore do túmulo aparece o título de seu último grande sucesso, "O Tempo Não Para", e as datas de seu nascimento e morte.

No ano seguinte, foi lançado o álbum póstumo Por aí.

O estilo, a habilidade vocal e a obra produzida por Cazuza tiveram um impacto significante na música popular brasileira. Isso deu-lhe o título de um dos maiores vocalistas masculinos de música contemporânea.

Em apenas dez anos de carreira, Cazuza deixou 126 canções gravadas, 78 inéditas e 34 para outros intérpretes. As canções de Cazuza já foram reinterpretadas pelos mais diversos artistas brasileiros dos mais diversos gêneros musicais.

No ano 2000 foi exibido no Rio de Janeiro e em São Paulo o musical Casas de Cazuza, escrito e dirigido por Rodrigo Pitta, cuja história tem base nas canções de Cazuza. Em 2004 foi lançado o filme biográfico Cazuza - O Tempo Não Pára.

Após sua morte, no mesmo ano, a mãe Lucinha Araújo ajudou a fundar a Sociedade Viva Cazuza, cuja intenção é proporcionar uma vida melhor a crianças soropositivas através de assistência à saúde, educação e lazer.

Discografia

Com o Barão Vermelho
1982 Barão Vermelho
1983 Barão Vermelho 2
1984 Maior Abandonado

Carreira solo
1985 Exagerado
1987 Só se For a Dois
1988 Ideologia
1989 O Tempo não Para
1989 Burguesia
1991 Por aí (Póstumo)
2005 O Poeta Está Vivo - Ao Vivo no Teatro Ipanema 1987 (Póstumo)

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